Receber um Pix por engano não é crime. Entretanto, ficar com dinheiro que você sabe pertencer a outra pessoa pode configurar o crime de apropriação de coisa havida por erro, previsto no artigo 169 do Código Penal, além de gerar a obrigação de devolver o valor.
Imagine abrir o aplicativo do banco e encontrar uma transferência de R$ 3.000,00 feita por uma pessoa desconhecida. Você não estava esperando esse pagamento e, pouco depois, recebe uma mensagem solicitando a devolução.
Nessa situação, surgem dúvidas: sou obrigado a devolver imediatamente? Posso esperar para verificar se é golpe? E se já tiver gasto o dinheiro? A pessoa pode registrar um boletim de ocorrência contra mim?
A resposta depende das circunstâncias. Existe uma diferença importante entre receber uma transferência equivocada, ter uma obrigação civil de restituição e praticar uma conduta que possa caracterizar crime.
Também é necessário ter cuidado com o chamado golpe do Pix errado, no qual criminosos utilizam falsas solicitações de devolução para tentar obter dinheiro.
Veja quando não devolver um Pix pode gerar consequências criminais, quais são os direitos de quem recebeu a transferência e como proceder com segurança.
É Crime Não Devolver um Pix Recebido por Engano?
Sim, pode ser crime, mas não automaticamente. Para existir responsabilidade criminal, é necessário verificar se a pessoa sabia que o dinheiro não lhe pertencia e se houve intenção de se apropriar do valor.
O artigo 169 do Código Penal prevê o crime de apropriação de coisa havida por erro, caso fortuito ou força da natureza.
A pena prevista é de detenção de um mês a um ano, ou multa.
Esse dispositivo pode ser aplicado quando uma pessoa recebe dinheiro em razão de um equívoco e, sabendo que o valor pertence a outra pessoa, passa a agir como se fosse sua proprietária.
Por exemplo, alguém recebe um Pix de R$ 5.000,00, descobre que a transferência foi realizada por engano e decide utilizar o dinheiro para pagar despesas pessoais, mesmo sabendo que não possui direito àquela quantia.
Nessa hipótese, podem existir elementos que justifiquem a investigação de eventual apropriação de coisa havida por erro.
Por outro lado, o simples recebimento da transferência não demonstra a prática de crime. A demora na devolução também não permite concluir, isoladamente, que houve intenção criminosa.
É necessário analisar o comportamento do destinatário e as circunstâncias concretas.
Qual É o Crime de Quem Fica com um Pix Recebido por Engano?
O enquadramento penal que merece especial atenção é o artigo 169, caput, do Código Penal.
Embora muitas pessoas utilizem a expressão “apropriação indébita”, existe uma distinção jurídica entre os crimes previstos nos artigos 168 e 169.
A apropriação indébita, prevista no artigo 168, pressupõe que o agente tenha a posse ou detenção de coisa alheia e posteriormente se aproprie dela.
Já o artigo 169 trata especificamente da apropriação de coisa que chegou ao poder da pessoa por erro, caso fortuito ou força da natureza.
Quando uma transferência Pix é realizada equivocadamente para a conta de um desconhecido, o artigo 169 pode ser o enquadramento mais adequado, desde que estejam presentes os elementos necessários à caracterização do delito.
Essa diferenciação é importante porque a acusação criminal deve corresponder à conduta efetivamente praticada.
Recebi um Pix de Desconhecido. Sou Obrigado a Devolver?
Em regra, sim.
O Código Civil estabelece que quem recebe um pagamento indevido está sujeito à obrigação de restituição.
O artigo 876 determina que aquele que recebeu o que não era devido fica obrigado a restituir. O artigo 884 também trata da proibição do enriquecimento sem causa.
Portanto, o dinheiro não passa a pertencer ao destinatário simplesmente porque foi depositado em sua conta bancária.
Entretanto, é importante distinguir duas situações:
- Responsabilidade civil: envolve a obrigação de devolver o dinheiro recebido indevidamente.
- Responsabilidade criminal: depende da demonstração dos elementos de uma infração penal, incluindo a intenção exigida pelo tipo penal.
Assim, uma pessoa pode estar obrigada a devolver determinado valor sem que isso signifique, necessariamente, que tenha cometido um crime.
O Que Fazer Quando Receber um Pix por Engano?
O primeiro cuidado é verificar se a transferência realmente foi realizada.
Não confie apenas em mensagens de WhatsApp ou comprovantes enviados por desconhecidos. Consulte o extrato da sua própria conta bancária.
Se o dinheiro estiver disponível e você identificar que não existe justificativa para o recebimento, algumas providências são recomendadas:
- Confira o valor e os dados da transferência;
- Não utilize o dinheiro enquanto a situação estiver sendo esclarecida;
- Acesse os detalhes do Pix recebido no aplicativo bancário;
- Utilize a funcionalidade de devolução da própria transação;
- Não envie um novo Pix para outra chave indicada por desconhecidos;
- Guarde o comprovante da devolução;
- Se houver dificuldade técnica, entre em contato com o banco pelos canais oficiais.
O Banco Central orienta que a devolução seja realizada pela funcionalidade específica vinculada à transferência original.
Esse procedimento permite que o dinheiro retorne à conta de origem e reduz o risco de golpes envolvendo pedidos fraudulentos de devolução.
Recebi um Pix por Engano e Já Gastei o Dinheiro. O Que Acontece?
Essa é uma das situações que exigem maior atenção jurídica.
O fato de o dinheiro ter sido utilizado não elimina a obrigação de restituição. Além disso, dependendo das circunstâncias, a utilização consciente do valor pode ser relevante para a apuração de eventual crime.
Imagine duas situações diferentes.
Primeira situação: uma pessoa recebe uma transferência inesperada, não percebe o crédito e continua movimentando normalmente sua conta bancária. Somente depois descobre que parte do saldo correspondia a um Pix recebido por erro.
Segunda situação: uma pessoa identifica o Pix indevido, confirma que o dinheiro pertence a um desconhecido e decide gastá-lo porque acredita que não precisará devolver.
Embora ambas envolvam dinheiro recebido equivocadamente, as circunstâncias são distintas.
Na esfera criminal, é necessário verificar quando o destinatário tomou conhecimento do erro e se houve intenção de incorporar o dinheiro ao próprio patrimônio.
Se o valor já foi utilizado, é importante avaliar a situação antes de assumir compromissos ou prestar esclarecimentos sobre fatos que possam gerar repercussões criminais.
Não Devolvi um Pix. Posso Ser Preso?
Não existe prisão automática pelo simples recebimento de um Pix equivocado ou pela existência de uma cobrança.
O crime previsto no artigo 169 do Código Penal possui pena de detenção de um mês a um ano, ou multa.
Em regra, trata-se de infração de menor potencial ofensivo, sujeita às disposições pertinentes da Lei nº 9.099/1995.
Dependendo das circunstâncias e dos requisitos legais, podem ser avaliadas medidas como composição civil dos danos e transação penal.
Isso não significa que a pessoa esteja automaticamente livre de consequências criminais.
Uma investigação pode ser instaurada para esclarecer se houve apropriação consciente do dinheiro.
Também é necessário considerar que situações envolvendo fraude, participação em golpes ou utilização de contas bancárias por terceiros podem apresentar enquadramentos penais diferentes.
Fizeram um Boletim de Ocorrência Porque Não Devolvi o Pix. O Que Fazer?
O registro de um boletim de ocorrência não significa que a pessoa tenha sido condenada ou que exista necessariamente um processo criminal em andamento.
O boletim registra os fatos comunicados à autoridade policial e pode dar origem à apuração das circunstâncias.
Se houver investigação, poderão ser examinados os comprovantes bancários, as mensagens trocadas entre os envolvidos e as providências adotadas após o recebimento da transferência.
Por isso, é importante preservar documentos que ajudem a reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Se você recebeu uma intimação para comparecer à delegacia, é recomendável compreender sua condição no procedimento, os fatos investigados e os direitos aplicáveis, inclusive o direito de não produzir prova contra si.
O acompanhamento jurídico pode ser relevante para analisar os elementos disponíveis e orientar a atuação durante a investigação.
Conheça também a atuação do escritório em Direito Criminal em Belo Horizonte e Região Metropolitana.
Devolver o Pix Depois de uma Denúncia Elimina o Crime?
Não necessariamente.
A devolução posterior do dinheiro pode ter relevância jurídica, mas não afasta automaticamente eventual responsabilidade penal.
É necessário verificar se houve efetivamente uma infração criminal, quando ocorreu a restituição e quais circunstâncias estão presentes.
O artigo 16 do Código Penal prevê o arrependimento posterior em determinadas hipóteses de crimes cometidos sem violência ou grave ameaça, observados os requisitos legais, inclusive o momento da reparação.
Além disso, o artigo 170 do Código Penal determina a aplicação da regra do artigo 155, § 2º, aos crimes de apropriação previstos no respectivo capítulo, quando presentes os requisitos correspondentes.
Portanto, a restituição pode influenciar a solução jurídica, mas não é correto afirmar que devolver o Pix encerra automaticamente uma investigação ou impede qualquer responsabilização.
Existe Prazo de 15 Dias para Devolver um Pix Recebido por Engano?
Não existe uma regra geral que autorize o destinatário a ficar durante 15 dias com um Pix que sabe ter recebido equivocadamente.
Essa dúvida costuma surgir porque o artigo 169, parágrafo único, inciso II, do Código Penal estabelece um prazo de 15 dias para a restituição ou entrega à autoridade competente de coisa alheia perdida e encontrada.
Entretanto, essa hipótese corresponde à apropriação de coisa achada.
O recebimento de dinheiro por transferência bancária equivocada é situação distinta, que pode ser examinada à luz do artigo 169, caput.
Por isso, não é correto utilizar automaticamente o prazo previsto para coisa achada como justificativa para manter um Pix recebido por erro.
Recebi um Pix e Pediram para Devolver em Outra Conta. Pode Ser Golpe?
Sim.
Existe uma modalidade de fraude conhecida como golpe do Pix errado.
Nela, uma pessoa recebe uma transferência e, posteriormente, é procurada por alguém que afirma ter enviado o dinheiro equivocadamente.
O suposto remetente pede que o valor seja devolvido para uma chave Pix diferente daquela utilizada na operação original.
O problema é que o golpista pode tentar obter outra devolução pelos mecanismos bancários, causando prejuízo ao destinatário.
Por esse motivo, o Banco Central orienta que a devolução seja realizada diretamente pela funcionalidade da transação recebida.
Não é recomendável fazer um novo Pix para uma conta indicada por telefone, WhatsApp ou mensagem de desconhecido.
Se houver suspeita de golpe, procure seu banco pelos canais oficiais e preserve os registros das conversas.
O Banco Pode Bloquear Minha Conta Porque Recebi um Pix?
Dependendo das circunstâncias, instituições financeiras podem adotar medidas de segurança relacionadas a suspeitas de fraude.
O Mecanismo Especial de Devolução (MED), previsto na regulamentação do Pix, é utilizado nas hipóteses cabíveis, especialmente em situações de fraude e determinadas falhas operacionais.
Ele não deve ser confundido com a devolução comum de um Pix enviado por engano pelo próprio pagador.
Em uma apuração de fraude, pode ocorrer bloqueio de valores disponíveis, conforme as regras aplicáveis.
Entretanto, o recebimento de uma transferência não demonstra, por si só, que o titular da conta participou de um golpe.
Se houver bloqueio bancário, é importante solicitar esclarecimentos à instituição financeira, guardar os protocolos de atendimento e verificar quais operações estão sendo questionadas.
Recebi um Pix de um Golpe Sem Saber. Posso Responder por Estelionato?
O simples recebimento de dinheiro proveniente de uma fraude não significa, automaticamente, que o titular da conta tenha cometido estelionato.
O artigo 171 do Código Penal exige elementos específicos para a caracterização desse delito, incluindo a obtenção de vantagem ilícita mediante fraude, em prejuízo alheio.
Por isso, é necessário examinar se houve participação consciente na fraude, qual foi a atuação atribuída ao recebedor e quais provas sustentam eventual acusação.
Existem situações em que contas bancárias são utilizadas por terceiros, inclusive mediante fraude ou sem o conhecimento adequado do titular.
Em outros casos, a investigação pode apontar participação voluntária no recebimento e na movimentação de valores ilícitos.
Essas hipóteses não devem ser tratadas da mesma maneira.
Se a conta foi vinculada a uma investigação de fraude, a análise dos extratos, das comunicações e da movimentação financeira é especialmente importante.
Quais Provas Guardar Quando Receber um Pix por Engano?
Se existe cobrança, suspeita de golpe ou investigação criminal, os documentos podem ajudar a esclarecer o que realmente aconteceu.
Entre os registros relevantes estão:
- Extrato bancário demonstrando o recebimento do Pix;
- Identificação e data da transferência;
- Comprovante de eventual devolução;
- Mensagens recebidas do suposto remetente;
- Conversas sobre a origem do dinheiro;
- Protocolos de atendimento do banco;
- Registros de tentativas de devolução;
- Comunicações de bloqueio bancário;
- Boletim de ocorrência e intimações, quando existentes.
Esses documentos permitem verificar quando o dinheiro foi recebido, quando o destinatário tomou conhecimento do erro e quais providências foram adotadas.
Em matéria criminal, essa sequência pode ser relevante para a análise da existência ou não de intenção de apropriação.
Advogado Criminalista para Acusações Envolvendo Pix em Belo Horizonte e Região

Quando o recebimento de um Pix por engano resulta em boletim de ocorrência, intimação policial ou acusação criminal, é importante analisar os fatos antes de definir a estratégia jurídica.
O escritório Valter Lopes Advocacia atua em Direito Criminal, incluindo a assistência jurídica em investigações e acusações relacionadas a movimentações financeiras.
A análise pode envolver o exame de extratos bancários, comprovantes de transferência, mensagens, registros policiais e outros documentos relacionados ao caso.
O escritório está localizado em Ribeirão das Neves/MG e realiza atendimentos em Belo Horizonte, na Região Metropolitana e por meios digitais.
A atuação jurídica deve considerar as particularidades da situação, sem presumir que toda transferência equivocada representa crime ou que toda acusação será necessariamente afastada.
Perguntas Frequentes Sobre Pix Recebido por Engano
Receber um Pix de Desconhecido É Crime?
Não. O simples recebimento inesperado de dinheiro não constitui crime. A eventual responsabilidade penal depende da conduta posterior e dos elementos exigidos pela legislação.
Se Eu Não Devolver um Pix, Posso Ser Processado?
Sim. O verdadeiro titular pode buscar a restituição do dinheiro pela via civil. Dependendo das circunstâncias, também poderá haver apuração criminal sobre eventual apropriação de valores recebidos por erro.
Posso Ficar com um Pix Que Ninguém Reclamou?
O fato de ninguém ter solicitado a devolução não transforma automaticamente o dinheiro em propriedade do destinatário. Se o valor foi recebido indevidamente, pode existir obrigação de restituição.
Posso Esperar Alguns Dias Antes de Devolver o Pix?
É razoável verificar a autenticidade da transferência e utilizar os canais oficiais do banco. Entretanto, não é recomendável manter injustificadamente dinheiro que você reconhece pertencer a outra pessoa.
O Que Acontece Se Eu Gastar um Pix Recebido por Engano?
A utilização do dinheiro não elimina a obrigação de devolução. Dependendo do conhecimento do erro e da intenção do destinatário, a conduta também pode apresentar repercussões criminais.
Quem Recebe Pix por Engano Pode Ser Preso?
Não existe prisão automática. A eventual responsabilização criminal depende da caracterização de uma infração penal e da observância dos procedimentos legais.
Devolver o Pix Depois do Boletim de Ocorrência Resolve o Problema?
A restituição pode ser relevante, mas não encerra automaticamente uma investigação. É necessário avaliar se houve crime e quais efeitos jurídicos podem decorrer da devolução.
Como Devolver um Pix Sem Cair em Golpe?
Confira o recebimento no extrato e utilize a funcionalidade de devolução vinculada à operação original. Não faça um novo Pix para outra chave indicada por desconhecidos.
Se Eu Receber um Pix de Origem Criminosa Sem Saber, Serei Responsabilizado?
O recebimento involuntário, isoladamente, não comprova participação em crime. A investigação deve examinar a conduta efetiva do destinatário e os elementos necessários à responsabilização penal.
Recebeu um Pix por Engano e Está Sendo Acusado de Crime?
O primeiro passo é compreender exatamente o que aconteceu.
Se você recebeu um Pix inesperado, confirme a transferência, evite utilizar o dinheiro e procure realizar a devolução pela funcionalidade da operação original.
Se o valor já foi gasto, existe uma cobrança ou foi registrado boletim de ocorrência, a situação exige uma análise mais cuidadosa.
É necessário verificar quando você tomou conhecimento do erro, quais providências foram adotadas e se existem elementos que possam caracterizar apropriação de coisa havida por erro.
O recebimento de um Pix equivocado não torna ninguém criminoso automaticamente. A responsabilidade penal depende da demonstração da conduta prevista em lei.
O Dr. Valter de Sá Lopes, OAB/MG nº 238.502, atua em Direito Criminal, prestando assistência jurídica em investigações e processos criminais em Belo Horizonte, Ribeirão das Neves e Região Metropolitana, além de atendimento por meios digitais.
Se você está enfrentando uma acusação relacionada ao recebimento de Pix por engano, entre em contato para solicitar uma análise jurídica da situação.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui a análise jurídica individualizada. A caracterização de infração penal e suas consequências dependem das circunstâncias concretas.
